Carlos Maltz: Nascí numa família judaica, pessoas decentes e racionais. Ninguém da minha família tocava nada, eram todos engenheiros. Comecei batendo nas gavetas e panelas da casa de meus pais. Em 1975, o Inter de POA ganhou o primeiro campeonato para o RGS. Eu tinha 13 anos. Frequentava o estádio com meu avô, nas cadeiras cativas. No ano seguinte, deixei meu avô e as cadeiras para trás, e ingressei na camisa 12, a primeira torcida organizada do S.C.Internacional. Meu objetivo principal era tocar na "charanga", a galera ficava tocando e animando a torcida o jogo inteiro. Naquela época, só tinha negro na charanga, e eu, além de ser branquelo, era magro que nem um caniço, e desajeitado do tanto que um adolescente judeu da minha idade podia ser. Um dia, sobrou um "Supapo", que é um surdo de resposta, que se toca com as mãos. Ninguém queria pegar, por que o trem é imenso e super pesado de carregar. Peguei. E ganhei a vaga. Toquei com a charanga do Inter até mais ou menos 1977. Já estava com 15 anos. Comprei um bongô e alguns outros intrumentos de percussão. Tocava com os amigos, nada muito profissional. Eu queria tocar bateria, mas o meu velho nem cogitava a possibilidade de gastar dinheiro com uma coisa daquelas. Em 1980, Vestibular. O pai falou: se passar, ganha um fusca, se quiser, vende o fusca e compra a bateria. Passar, para ele, significava passar em Engenharia, na Federal do RGS. Passei, chutando todas as questões da prova de Matemática e Física. Ganhei o Fusca, vendi, comprei uma "Pinguim" madre-perolada e comecei a tocar com os amigos. Foi assim.
Site Batera: Você teve um estudo formal em música?
Carlos Maltz: Não, até que eu tentei, mas aquilo nunca me interessou. Eu gostava mesmo era de música.
Site Batera: Houve um momento da sua vida em que você decidiu ser um profissional da música? Ou as coisas aconteceram espontaneamente?
Carlos Maltz: Nunca pensei em ser profissional da música, e nem de nada. Sempre fui (e continuo sendo) amador em tudo o que eu faço. Só sou profissional em meu amadorismo. Sou um amador profissional até hoje (risos). Faço por que gosto, e só faço o que gosto. Sei lá, acho que tive muita sorte na vida... E as coisas vieram acontecendo.
Site Batera: Você toca/estudou algum outro instrumento? Acha isso importante?
Carlos Maltz: Aprendi a tocar violão, para poder compor as minhas músicas, mas sei lá... Nem sei se posso dizer que toco violão. Só sei uns cinco acordes. Acho que como violonista sou um bom baterista (risos). Não sou o cara mais adequado para falar sobre esse assunto. Não sou um bom exemplo para os garotos.
Site Batera: Você é um dos fundadores do Engenheiros do Hawaii. Como isso se deu?
Carlos Maltz: Bem, eu fiquei na Engenharia mais ou menos uns 10 dias, que foi o tempo que eu levei pra perceber que não teria a menor chance naquele negócio. Um dia estava numa aula de “geometria não-sei-das-quantas”, eu não estava entendendo nem qual era o assunto que os caras estavam falando. Um monte de macho, ambiente racionalóide, fedorento. A coisa mais parecida com o Inferno que eu já conheci. Olhei pela janela. Do outro lado da rua, a faculdade de Arquitetura. Um monte de gatinhas com aquelas "régua-T" enooooormeeeesss... Pensei: O que é que tu tá fazendo aqui seu imbecil? Fiz vestibular para Arquitetura, passei, também sem saber nenhuma da prova de Matemática e Física e fui lá, para o reino das "réguas T". Em 1984, teve uma greve. As aulas foram até Janeiro de 1985. No dia 11 de Janeiro de 1985, o pessoal do DA fez uma festa para comemorar o final do ano letivo. Tinha uns amigos meus no diretório. Eles tiveram uma idéia genial: fazer uma banda só com alunos da Arquitetura. Fizemos; Eu, o Humberto Gessinger, o Marcelo Pitz, nosso primeiro baixista, o o Carlos Stein, que depois veio a ser guitarrista da banda Nenhum de Nós. Montamos a banda. Que era pra durar só um dia, somente aquela noite. O Gessinger veio com o nome: "Engenheiros do Hawaii", que era uma tiração de sarro com os caras da Engenharia que viviam no "nosso" bar, dando em cima das "nossas" garotas. Era pra durar só um dia. Mas naquele dia, naquela noite, na platéia daquele show, tinha um cara que era dono de uma casa noturna, o 433, que era onde as bandas estavam tocando. Ele estava lá por que estava querendo namorar uma menina que estudava Arquitetura, e viu o show. Por acaso, gostou (devia estar bêbado) e nos convidou para fazer um show no 433. O resto, é história do rock gaúcho.
Site Batera: Como era o processo de composição na banda? Até que ponto você influenciava ou opinava nos arranjos?
Carlos Maltz: O Gessinger é um arquiteto modernista na música. Ele já vinha com tudo pronto. Até a hora que a gente ia respirar (risos). Mas a gente tocava do jeito que podia. E ia mudando tudo na estrada. Acho que nunca fizemos dois shows iguais. Não que a gente não quisesse. Eu não conseguia, sempre achei mais fácil inventar do que repetir. A gente ensaiava diante do público, e criava constantemente. Testava, errava diante do público. Coisa de um tempo em que não se tocava com “click”, bateria eletrônica, samplers, essas tralhas tecnológicas.
Site Batera: Quando começamos a tocar, tudo é curtição... o lance é reunir os amigos, fazer um som e tal. Quando você está num projeto que deu certo (como o Engenheiros do Hawaii), você cria uma legião de fãs... e aí, algumas coisas mudam, porque pinta uma certa ‘responsabilidade’ nas mensagens que a banda passa. Como você encara esse lance da influência que vocês exerceram e ainda exercem sobre os milhares de fãs?
Carlos Maltz: Pois é, Fazer o quê, né? A gente se torna responsável por aquilo e aqueles a quem cativamos. E estamos aí, fazendo música, escrevendo livros, respondendo milhares de cartas e e-mails ao longo desses anos todos. Nos posicionando e dizendo alto e bom som o que pensamos e sentimos á respeito desse mundo em que vivemos, para quem quiser ouvir. E quem se interessar pelo que temos a dizer. E para quem se interessar, tem o blog do meu livro, que acabou de ser lançado, o "Abilolado Mundo Novo":
www.abiloladomundonovo.blogspot.com
Site Batera: O que há de melhor e de pior em ser baterista de uma banda famosa?
Carlos Maltz: O de melhor, é que você se torna um personagem, um ícone Pop como o logotipo da Coca-Cola ou a Barbie, por exemplo. O de pior, é a mesma coisa.
Site Batera: Quais foram suas atividades musicais após sua saída da banda? Você ainda faz participações em alguns shows do Engenheiros? Está com alguma banda?
Carlos Maltz: Quando deixei de ser um "Engenheiro", montei uma banda com um cara que eu conheci num dia em que estava voltando de uma gravação, no Rio, e teve uma tempestade. Ficamos horas ilhados em um posto de gasolina com as violas no carro. Começamos a tocar e saímos de lá, quando a água baixou, com a banda montada. É o Marcão Melgar, que está comigo até hoje. Pois é, fizemos a "Irmandade Interplanetária". Com os irmãos do Marcus. Eu era o vocalista (pasmén!!!) e principal compositor. Gravamos um CD independente em 1996, num gravador "Tascam" de oito canais, que gravava em fita K7 (risos). A gurizada que está lendo isso não deve nem saber o que é uma fita K7. A banda era muito doida. Nossas músicas falavam de ET's, Reencarnação, Sonhos, Viagens Astrais. (vocês podem ouvir o material no meu site: www.carlosmaltz.com.br). Obviamente nenhuma gravadora se interessou, e o meu dinheiro acabou. Em 1999 me mudei para Brasília, comecei a trabalhar como astrólogo, e minha vida deu uma guinada forte. Parei de tocar com os caras, que continuaram morando no Rio. Em 2001, me reuní novamente com o Gessinger, a gente ficou uns cinco anos sem se falar, e gravamos "Farinha do Mesmo Saco" onde eu toquei violão, bateria, e cantei as músicas (que são todas minhas). De lá pra cá, venho fazendo alguns shows, participações em discos e shows do Gessinger, essas coisas. Quando a gente tem algum tempo, que atualmente tenho o consultório de Astrologia, e outro de Psicologia, que vim a estudar já em Brasília. No final do ano passado, lancei o meu primeiro livro: Abilolado Mundo Novo. Fiz algus shows de lançamento, chamei o Marcão. Fizemos dois violões e talz, repertório antigo e algumas coisas novas também. Já tenho material para gravar um CD (ainda existe isso?) O Marcão está querendo gravar nesse ano. Vamos ver.
Site Batera: Você tem se dedicado ao estudo de Astrologia e Psicologia. Você poderia nos contar um pouco sobre o interesse por estas áreas?
Carlos Maltz: Bem, sou um cara profundamente interessado em conhecer a mim mesmo. Isto, para mim, é o que existe de mais importante na nossa existência. O que estamos fazendo por aqui, qual o sentido dessa tralha toda. Enfim, como dizem os mineiros: donco vim, pronco vô, essas coisas. A Psicologia, a Astrologia, a Religião entram nessa senda, das disciplinas do auto-conhecimento, que aliás, na antiguidade, faziam parte da mesma escola, onde se estudava a Música. No fundo, como diz o Gessinger, tudo é ritmo. Astrologia é Música. "Música das Esferas".
Site Batera: Os anos 80 foram uma fase ímpar na história do rock nacional. Eu gostaria que você tentasse descrever como foi fazer parte desta ‘safra privilegiada’.
Carlos Maltz: Sem dúvida, os anos 80 foram muito fora do padrão habitual do que é a música pop brasileira. Sei lá, acho que aqueles anos todos de ditadura e repressão geraram aquele tesão reprimido por idéias, por caras que pensam. E lá estávamos nós, quando as portas se abriram. O rádio, naquela época, era muito rico. Eu ouvia caras como o Lobão, o Paulo Ricardo, O Herbert, O Renato, O Arnaldo Antunes. Caras geniais. Compare com a porcaria que toca atualmente. Com a baboseira que virou o rock. E essa choradeira de corno que é a música sertaneja de agora. E isso sem falar de ‘funk’ e coisas que o valham, que eu nem considero música. Aquela época realmente foi fora do padrão. E isso me deu vontade de estar em uma banda, de estar junto também, "dinamitando o paiol de bobagens". Acho que se eu tivesse 17 anos agora, não ia estar pensando em estar em uma banda de rock. Aliás, eu tenho 47 e não estou em uma banda de rock, estou escrevendo livros. Sintomático, né? Eu acho que tenho sido um cara de muita sorte na vida. Amigo; muita sorte! Apesar de já ter sofrido um bocado também, por causa de mim mesmo. Mas, sou um cara de muita sorte. Não só por ter estado na estrada e nos palcos ao lado dessa geração, mas por poder ganhar a minha vida com a minha arte, seja na Música, na Astrologia, na Psicologia, ou escrevendo livros. Enfim, sempre fazendo do meu jeito, exatamente como eu penso que deve ser, sem concessões, como sempre tenho feito.
Site Batera: Como você vê o rock nacional atual? Há algo que te agrada? Há algo que te incomoda?
Carlos Maltz: Bem, o que é que eu vou dizer? Eu falo um tanto sobre isso no livro. Estamos vivendo um momento de grande decadência na civilização ocidental. Pegue uma pessoa qualquer do começo do século XX e coloque ela ‘aquiagora’, diante da televisão em um dia qualquer, qualquer canal. Esse cara vomitaria em menos de cinco minutos de programação. Teria um ataque do coração, sei lá. Causa mortis: indignação e nojo. Vejo o rock sem alma, sem vitalidade. Um paiol de bobagens. Um machado sem fio, derrubando uma árvore morta, que é a civilização em que nos encontramos nesse momento. A culpa não é dos garotos, das bandas. Nem minha, nem sua. Estamos vivendo o final de uma civilização. É desse jeito mesmo.Não vejo nada com muita vitalidade e Luz em nenhum campo da cultura nesse momento. Mas, sei lá... Talvez sejam apenas os meus olhos, né? Talvez eu seja apenas um judeu velho e pessimista. Sei lá. Veja todas essas bandas cover dos anos 80. Sintomático, não? Nos anos 80, não existiam bandas cover.
Site Batera: O que o motivou a escrever um livro? Do que ele trata?
Carlos Maltz: Bem, eu sou um ser dialógico, preciso estar conversando com as pessoas o tempo todo, aliás, o livro se passa todo na Internet, em uma sala de discussão onde eu estou discutindo de tudo com seis caras que são, na verdade, outras partes de mim mesmo. Vamos discutindo, Sexo, Deus & Rock'n'Roll, que eu não dou conta de ficar vendo todas essas coisas que eu estou vendo e ficar calado. Vou gritando isso que eu estou vendo pelo mundo, pra ver se aparece alguém que me convence que eu estou errado, e que não há nada de errado com o mundo.
Site Batera: Há alguma coisa que você julgue importante que nos não falamos? Este espaço é todo seu.
Carlos Maltz: Hááá... Sempre me fazem essa última pergunta e eu sempre digo a mesma coisa, para os garotos que estão lendo isso, para os que estão começando. Meus amigos, a arte só faz sentido, se for vivida de verdade, com o coração. Com todo o risco que ela tem, quando é de verdade. Se vocês estão muito interessados em dinheiro, segurança, essas coisas, vão estudar Medicina, ou Direito. i - nTé + V :-) C.Maltz.
Fonte: www.batera.com.br


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